A saga de Valdetário Carneiro, o precursor do 'novo cangaço' no Nordeste

José Valdetário Carneiro começou a vida de crimes no começo dos anos 1990

Por Ronaldo Costa Josino 15/11/2021 - 13:54 hs

Nascido em Caraúbas, interior do Rio Grande do Norte, o mecânico José Valdetário Benevides Carneiro amava as artes e o teatro. Gostava também de usar chapéu de cangaceiro e tinha como ídolo Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, o "rei do cangaço".

Policiais atribuem ao bando de Valdetário, extraoficialmente, a autoria de ao menos 100 ataques a bancos em vários estados brasileiros entre o final dos anos 1990 e início dos anos 2000. A quadrilha agiu, principalmente, em Caraúbas, Apodi, Macau e Umarizal, no Rio Grande do Norte.

A vida de Valdetário, apontado por policiais nordestinos como o precursor do "novo cangaço" —expressão usada para designar as ações violentas de quadrilhas responsáveis por ataques a agências bancárias em cidades do interior do país—, começou a mudar de rumo a partir de 1991.

Prisão e humilhação

Foi quando a Justiça o condenou —injustamente, segundo ele dizia— a sete anos e meio de prisão. Valdetário foi acusado de ter roubado um Ford Pampa com o primo Agnaldo Benevides Carneiro, o Galego. Segundo versão policial, o crime foi cometido no município de São Bento, na Paraíba.

José Valdetário Carneiro começou a vida de crimes no começo dos anos 1990

Ambos foram presos e humilhados em praça pública na vizinha Caraúbas, no estado potiguar. Policiais amarraram os dois em uma caminhonete e desfilaram com eles pelas ruas da cidade. A punição foi aplicada como forma de servir de exemplo para outros eventuais criminosos.

Valdetário e Galego foram levados para uma prisão na Paraíba, de onde fugiram um ano e meio depois. O precursor do "novo cangaço" não deu sorte. Acabou recapturado no dia seguinte e ficou mais quatro anos e seis meses atrás das grades na Penitenciária de Campina Grande.

Mal saiu em liberdade e foi acusado por outro crime: O roubo de um carro e R$ 13 mil em dinheiro de uma fábrica em Mossoró, no Rio Grande do Norte. Mais uma vez Valdetário se disse injustiçado e resolveu investigar o caso por conta própria. Ele identificou dois ladrões e os obrigou a devolver os pertences das vítimas. Por conta disso passou a ser admirado por muitos.

Valdetário também se vingou do comerciante que o acusou de ter roubado o Ford Pampa em São Bento. Em 1997, ele voltou à Paraíba e matou Geraldo Francisco dos Santos.


Valdetário dizia ter sido torturado pela PM

Em entrevista a uma emissora de rádio, Valdetário explicou os motivos que o levaram a se tornar um fora da lei: "Eu não queria ser o que fizeram de mim". Ele tentou argumentar que se tornou um criminoso por causa das prisões e condenações alegadamente injustas e pelas torturas sofridas.

Um tenente da Polícia Militar o torturou por causa de um roubo cometido em uma fábrica, cujos donos eram inimigos da família Benevides Carneiro. O oficial foi preso depois, acusado de integrar um grupo de extermínio, e acabou assassinado em 1998 por atiradores ligados a Valdetário.

O criador do "novo cangaço", comparado a Lampião em várias cidades nordestinas, foi preso novamente. Em 5 de novembro de 2000, o bando dele o resgatou da Penitenciária de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte. Junto com ele escaparam outros 27 presos.

Cidade dominada

Segundo investigações, uma das ações mais violentas comandadas por Valdetário aconteceu em junho de 2002, em Macau, a 180 km de Natal. O bando atacou as agências do Banco do Brasil, Banco do Nordeste e Caixa Econômica Federal. Estima-se que foram levados R$ 500 mil das instituições financeiras.

Os assaltantes do "novo cangaço" sitiaram e dominaram a cidade. O delegado Robson Luiz de Medeiros Lima foi morto com tiros de fuzil. O colega dele, Antônio Teixeira dos Santos Júnior, também delegado, ficou ferido no braço e no rosto.

O crime chocou a opinião pública. Para as forças de segurança, a prisão de Valdetário era questão de honra. Graças à denúncia anônima, policiais civis chegaram ao esconderijo dele, no sítio Pau de Leite, em Lucrécia, no Rio Grande do Norte. Era o dia 10 de dezembro de 2003.

No imóvel estavam uma mulher e uma criança. O criador do "novo cangaço" foi morto a tiros. Tinha 44 anos. Segundo a polícia, ele resistiu à prisão. Familiares disseram que Valdetário saiu da casa com as mãos para cima e foi executado.

No dia seguinte o corpo dele foi enterrado no Cemitério Municipal de Caraúbas. O cortejo fúnebre atraiu 10 mil pessoas. Muita gente usava camiseta com a foto dele e o reverenciava como herói. Outros comemoraram a morte do ladrão. Tempos depois integrantes do bando foram presos e condenados a 108 anos pela Justiça Federal em primeira instância.

Livro e longa-metragem

A saga do precursor do "novo cangaço" é contada no livro-reportagem "Valdetário Carneiro - A essência da bala", escrito pelos jornalistas Rafael Barbosa e Paulo Nascimento. A obra, publicada pela Editora Tribo, foi lançada em 2013.

Rafael Barbosa contou à coluna que será lançada em breve uma segunda edição do livro. Haverá também uma versão digital. O prefácio deverá ficar por conta do premiado escritor e jornalista Xico Sá.

O autor Rafael Barbosa disse que já está em curso um longa-metragem, baseado em "A essência da bala", sobre a história de Valdetário Carneiro, considerado por muitos como o homem que espalhou o terror e o medo em várias regiões do sertão nordestino.

Josmar Jozino

Colunista do UOL

11/11/2021 04h00